Encerrar o mês de agosto também é uma oportunidade para reforçar uma mensagem que precisa permanecer presente durante todo o ano: violência contra a mulher não é assunto privado, nem deve ser enfrentada em silêncio. É uma questão de direitos, proteção e responsabilidade de toda a sociedade. Nesse contexto, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) representa um importante marco no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil, ao estabelecer mecanismos de prevenção, proteção e assistência às vítimas. A campanha Agosto Lilás foi criada justamente para ampliar a conscientização sobre essa realidade e reforçar, durante o mês em que a lei foi sancionada, a importância da informação, da prevenção e da mobilização da sociedade no combate à violência contra as mulheres.
Foi com esse olhar que o Instituto de Arte e Cidadania (IAC) promoveu, no encerramento do mês do Agosto Lilás, uma palestra voltada às famílias dos beneficiários atendidos pelo Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV). O encontro contou com a presença da equipe da Patrulha Maria da Penha, da Guarda Municipal de Fortaleza, e abriu espaço para informação, diálogo e orientação sobre a prevenção e o enfrentamento à violência contra as mulheres.
O encontro buscou falar sobre reconhecimento, cuidado e rede de proteção. Afinal, muitas vezes, o primeiro passo para interromper um ciclo de violência é conseguir identificar que determinadas atitudes, como ameaças, humilhações, controle, agressões físicas, violência sexual ou restrições à liberdade, também são formas de violência. A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Isso significa que a violência não se resume à agressão física: comportamentos como humilhar, ameaçar, controlar, constranger, impedir o acesso a recursos, destruir documentos ou bens, praticar violência sexual e difamar ou ofender também podem configurar situações de violência previstas pela legislação.
Uma realidade que ainda precisa ser enfrentada
Os números ajudam a dimensionar a importância de manter esse debate vivo. Dados da Secretária Nacional de Segurança Pública (Senasp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) mostram que, no primeiro semestre de 2026, 848 casos de vítimas de feminicídio foram registrados no Brasil, uma redução de 3,2% ao registrado em no mesmo período do ano anterior.
São números que não devem ser vistos apenas como estatísticas. Por trás de cada ocorrência existe uma mulher, uma família, uma história e, muitas vezes, crianças e adolescentes também impactados pela violência.
Por isso, falar sobre o tema de forma responsável e acessível é também uma forma de prevenção.
A informação como ferramenta de proteção
A presença da Patrulha Maria da Penha no encontro reforçou justamente essa perspectiva: conhecimento também protege.
Em Fortaleza, o Grupo Especializado Maria da Penha, da Guarda Municipal, atua com atendimento humanizado, patrulhamento preventivo, visitas, encaminhamentos e acompanhamento de mulheres em situação de violência. Somente no primeiro semestre de 2025, foram registradas 5.779 ações voltadas à proteção de mulheres, incluindo 4.019 rondas preventivas e patrulhamentos e 345 atendimentos diretos a vítimas.
A atuação da Guarda integra uma rede que precisa funcionar de maneira articulada, aproximando informação, acolhimento, segurança, assistência social, saúde e garantia de direitos.
É nesse ponto que iniciativas realizadas dentro dos territórios ganham ainda mais importância. Ao levar o debate para as famílias atendidas pelo SCFV, o IAC contribui para que a prevenção não fique restrita a campanhas ou datas específicas, mas faça parte das conversas que fortalecem vínculos e ajudam a construir comunidades mais conscientes e protetivas.
Do diálogo à proteção: uma atuação que continua
O compromisso do IAC com o enfrentamento à violência contra a mulher também se expressa para além das ações educativas.
Em parceria com o Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria da Proteção Social (SPS), o Instituto atua na execução de um serviço estadual de acolhimento temporário e sigiloso para mulheres em situação de violência doméstica e seus filhos. O trabalho integra a política de Proteção Social Especial e oferece suporte para que mulheres possam atravessar momentos de risco com segurança, cuidado e acompanhamento especializado.
Por razões de segurança, o equipamento de acolhimento não tem sua localização divulgada. Essa característica é parte fundamental da proteção oferecida às mulheres acolhidas.
No serviço, a atuação envolve assistência social e suporte psicossocial e jurídico, além de encaminhamentos e construção de alternativas para a retomada da autonomia e dos vínculos familiares e comunitários. A própria SPS estabelece entre suas atribuições o acompanhamento e o fortalecimento dos serviços voltados às mulheres em situação de violência. É uma atuação que traduz, na prática, um princípio importante: acolher é também proteger, escutar e ajudar a reconstruir caminhos.
Uma rede que começa com a escuta
O Agosto Lilás chega ao fim no calendário, mas a responsabilidade de enfrentar a violência contra a mulher permanece todos os dias.
Para o IAC, promover uma palestra, abrir espaço para perguntas, aproximar famílias da rede de proteção e atuar diretamente no acolhimento de mulheres são partes de uma mesma missão: fortalecer pessoas, vínculos e comunidades para que ninguém precise enfrentar uma situação de violência sozinha.
A informação pode ajudar alguém a reconhecer um sinal. A escuta pode ser o primeiro passo para pedir ajuda. Uma rede preparada pode fazer a diferença entre permanecer em uma situação de violência e encontrar um caminho de proteção.
Por isso, mais do que marcar o encerramento de uma campanha, a atividade realizada pelo IAC reafirma um compromisso que permanece: construir, por meio da cidadania, da educação e do cuidado, espaços onde mulheres sejam respeitadas, protegidas e livres para viver sem violência.